as variações do vermelho e as definições de desejo.

Um lugar para estacionar seu carro. Um lugar para poças d'água. um lugar para lavar a louça. (restou-me no rosto apenas um sorriso insano) AVISO: Suporte técnico 24 horas pelo e-mail; mr_coutinho@hotmail.com Obrigado pela preferência.

Nome: murilo
Local: Belém, Pará, Brazil

Toda a vez que você ver um grande sonhador, uma cena de extrema violência injustificada, duas pessoas se beijando, quando você ver uma tempestade através da sua janela, quando você ver seu o seu próprio rosto chorar diante o espelho, provavelmente haverá um jovem barbudo gargalhando disto tudo em algum lugar. Talvez você ache difícil saber se ele é um insensato medíocre ou um perfeito exemplo de um ser humano deformado pelo excessivo contato com credores e telefonistas.

Segunda-feira, Janeiro 31, 2005

Castelo



Quando fui à praia
Construí um castelo de areia,
E, mais tarde, a maré o destruiu.

Chorei, pois aquilo havia me dado muito trabalho,
Eu tinha levado horas naquilo.

Corri para a beira do mar
E chutei a água. O vento
A jogou de volta no meu rosto.

Já não distinguia o que era
O meu choro e o mar.


(Murilo Coutinho, março de 2004)


ouça:Iron & wine, naked as we came


p.s. O amor me provoca superstições.

p.s.1. "Tu viste? Papão deu-lhe de 2 a 1 no Remo! Esse Remo só ganha mesmo o Rainha das Rainhas!" Palavras de sabedoria proferidas por Natanael, vulgo Morcego branco, porteiro do Edifício no qual resido.


contatos: mr_coutinho@hotmail.com (msn)


Segunda-feira, Janeiro 10, 2005

Novo interlúdio, para engolir seus brincos


Engolir seus brincos

Pare de tentar
seduzir este corpo fr-
ágil.

Fragmentos de pele oss-
os dentes se decompoem:
Continuo a engolir seus
brincos e seus dedos.

Já nao tenho palavras na
língua, apenas sussuros
e um gosto amargo que
nao consigo dissolver.

Continuo a
engolir a carne
até manchar os
teus olhos.

Deixe-me rasgar
As minhas próprias
pálpebras toda vez que
teus dentes morderem
O céu da minha boca.

Quando teus cílios
reencontrarem
uns aos outros procurarao
pelos
que ficaram entre os meus
pêlos.


Buenos Aires, 11 de janeiro de 2005.

Sexta-feira, Janeiro 07, 2005

Interúdio: Naftalinas


Aviso desde já que também sou idiota o suficiente para nao gostar de palavras de amor e mesmo assim escrevê-las. Nao está bom, claro, é um poema sobre alguma espécie de amor. Creio que qualquer poema que tenha as palavras amor e coraçao por essência sao medíocres, mas como já disse acima, eu sou idiota e por assim ser, sou necessariamente medíocre. Viver também tem a miséria de sentir.
Confesso à todos, hoje estou perdidamente romântico. Estou com algum nojo de mim.

Naftalinas

As gavetas guardavam
caixas com o perfume
do tempo.

Papéis amarelados,
amassados, os erros
das palavras

(e os erros das palavras
De amor escritas de
Forma correta).

As palavras sao as mesmas,
Mas nao compreendo
Novos sentidos /
Velhos sentimentos.

As naftalinas do coraçao
Foram dissolvidas
Num único suspiro.

Hoje percebo que
Todos os coraçoes aquecidos
Sempre desejavam
Cobertores
E dias frios.

(Pés gelados só
constróem sorrisos e
Narizes vermelhos).

Buenos Aires, janeiro de 2005


Murilo Barba adverte: Existe cólera em Buenos Aires.

Interlúdio: Tesouras

Peço perdao por interromper a série de textos sobre a Odisséia Platina deste jovem barbudo, porém há um poema entre meus dentes. Aqui está:

Tesouras

Os fios caem.
Marcas de chao orientam
Homens de giz.

Caem os cabelos, seus
Restos no travesseiro.

Cortam-se as roupas
Costuram-se as carnes.

(e voce pode lamber as minhas feridas
outra vez).

Cabelos caem novamente
sobre o rosto
E nada os remove. Apodrecem,
Criam-se
Rugas nos lugares.

(as tesouras do barbeiro
sujaram
De prateado meus cabelos).

As tesouras nao sao de metal,
Sao feitas de tempo.

Mar Del Plata, 7 de janeiro de 2005

Quinta-feira, Janeiro 06, 2005

Uma Odisséia Platina: Segunda Parte, Uruguai

Notas de verao sobre as impressoes do inverno: A Odisséia platina realizada por um jovem barbudo.

Uma saga pela América Latina protagonizada por Murilo Barba em pleno verao no Trópico de Capricornio.

Senti como se eu levasse um grande murro na cara. Travesseiros ortopédicos combinados com colchoes à base de compensados de madeira realmente sao capazes disto. Bem-vindo à Montevidéu, capital da República Oriental do Uruguai, Murilo.Isto aquí já foi parte do Brasil por singelos quatro anos ( 1822-1825), o povo aquí tem origem gaúcha, a mesma do povo do sul do Brasil, porém falam español.
Estes foram os dados que pude compreender do muchacho que trabalha na portaria. Nao entrei em detalhes por conta de nao ser capaz de compreender o que ele dizia e de ter muita dor na minha mandíbula haja vista o murro dado pelo travesseiro, mas percebi que nao era tao difícil compreender o idioma deles e que nao seria tao detestável falar-lo, pois até alguns momentos antes eu tinha horror ao espanol, vinha-me à mente a imagem do Julio Ilgesias cantando “besame mucho”. Nossa, é uma língua de seres humanos normais. - pensei comigo mesmo – nem tive vontade de agredir aquele muchacho. A partir daí, tive coragem de me arriscar a hablar un poquito e passear pelas ruas cinzentas de Mtevideo. Mesmo tendo comido algumas coisas no café-da-manha do hotel, como um bom barbudinho fui atrás de algo para comer, alguma especiaria local, algo que me fizesse lembrar daquele lugar e encará-lo realmente como algo independente do Brasil, com cultura própria. Havia uma padaria perto do hotel, e lá adentrei já visando encontrar um refúgio nas horas de fome e solidao. Conforme o lema já difundido na minha família, o já conhecido “Murilo, tá com fome? – Seempre!” (nao pode haver nada mais gordinho que isto no mundo), que constava na minha alma naquele exato momento, aproximo-me do balcao e começo a gesticular de uma forma suspeita, falando sanduíchón e movendo as maos de forma ambígua e já com a habitual sensual/erótico/pornográfica. A balconista era uma moça magra, bem branca com os cabelos quase negros escondidos dentro de uma touquinha azul, o rosto um pouco sujo de farinha de rosca, um avental ainda limpo e dois olhos estremamente fundos, até agora me pergunto se ela usava o resto da maquiagem pesada da noite de natal ou se eram olheiras ofensivas.
Bem, o que importa é diante de toda a minha gesticulaçao frenética e dúbia ela arregalou os olhos, deu um passo atrás e falou bem alto: - FELIPE! Logo eu páro e começo a gesticular de uma forma negativa e dizendo que no no no ela se reaproxima do balcáo e pergunta novamente: ¿Quieres um… um… FELIPE? Por um momento eu fiquei muito decepcionado. O Primeiro motivo foi pelo fato dela pensar que eu sou homossexual por falar sanduíchón e gesticular de forma obscena. O segundo é que porra, em que país do mundo haveria um serviço de prostituiçao de homens em padarias? E ainda pelo horário da manha. Este país doentio me assusta. Aproximo-me novamente para travar o duelo com a balconista, que saiu correndo para uma portinha ali perto que era coberta por uma cortina de miçangas. Pensei em fugir, de verdade. O motivo que me levou a ficar ali foi o de ter lembrado de um verso de Fight Test do Flaming lips ('Cause I'm a man, not a boy and there are things you can't avoid. You have to face them, when you're not prepared to face them)
E ali fiquei, imóvel e momentaneamente calado. Felipe era o nome de um amigo meu de infancia, meu Deus, isto é horrível. Fiquei a observar a porta esperando algo que possa ao menos me espancar. E a porta abre, as miçangas balançam, cerro os punhos, pois devo estar pronto. As miçangas dividem-se. Ela coloca algo comprido no balcao. Sorri para mim e fala: Pronto, acá está su Felipe. Porra, realmente esse país me assusta. Como alguém pode dar nomes próprios para comidas? Que tipo de cultura doentia daria o nome de um sanduíche de Felipe? Imaginava já ter que comer um pudim chamado Thiago, uma empada chamado Camila e, quem sabe, tomar um suco chamado Fernando. Mesmo sendo uma cultura absurda, confesso que é característa. Ele me venceram até aí. The test is over.
Após elaborar meu ritual para devorar Felipe, regado a coca-cola e ketchup continuo a minha peregrinaçao por paragens cinzentas, porém belas. A cidade tem um clima agradável, as ruas sao largas, as pessoas bonitas. Aproveito para andar algumas quadras enquanto entro de boteco em boteco pedindo palitos (óbvio que ninguém compreendia), mas acredito que havia algum pedaço do Felipe preso entre meus dentes. Andei umas quadras e encontrei uma loja de discos recomendada por um uruguaio estranho. Lá, andando por entre as gondolas, ardeu-me um violento desespero: Numa prateleira avisto o Yoshimi battles and the pink robots, do Flaming Lips. Sim, ali se materializava um sonho. Pego o cd, olho os detalhes, a setlist perfeita, e o preço… equivalente a 18 reais. Sim, 18 reais, novo.,Lacrado e meu, agora. Lá compro outros discos como os do Wilco, o Yankee Hotel Foxtrot e o Summerteeth e o do Cardigans, first band on the moon, este último por um preço de 3 dólares (pouco menos de 9 reais). Confesso que voltei para o hotel com um big mac e lágrimas nos olhos.
Hora do city tour. Cidade bela. Comemos num restaurante belo. Os shoppings sao bons. O dia seguinte também correu-se com tranquilidade. No terceiro dia fomos para a rodoviária, rumo à Punta Del Leste (Por favor, nao resista, diga ao menos uma vez Puta del leste. Até a minha mae e a minha vó disseram isso). Taí, uma cidade linda. Las Playas sao belas, onde encontram-se espécimes humanas curiosíssimas e muito distintas. Eu, por exemplo, nao sabia que punks iam à praia. Pensei que só falavam palavrao, andavam de skate e ouviam Charlie Brown Jr., mas me enganei. Havia punks característicos de cabelos e tatuagens com sons relacionados que desligavam tudo, pegavam uma toalha, uma cadeira e um livro do Sidney Sheldon e postavam-se para o Sol. Isso tudo ao lado de mulheres loiras com 250 ml de silicone e corpos malhadíssimos bebendo champagne ao lado de gringos de meia-idade que nao falavam a mesma língua de suas acompanhantes, apenas chicas o tempo inteiro, onde alguns fotógrafos passavam e entrevistavam este hombre, o qual falava apenas “Punta és muy bela, adoro chicas latinas”. Isto é fato; com certeza absoluta é um lugar interessante. Falando em Punta (sic), o cassino é muito legal. Agente coloca moedas, aperta botoes e perde dinheiro. Sai se sentindo num misto de felicidade por se achar importante em ir num cassino e triste por ter deixado seu dinheiro para tras somente por aquilo.
Voltei para Montevidéu, lá tive que ir gravar as fotografias com o intuito de ter mais espaço na camera, pois ainda iríamos para Buenos Aires. Lá, na hora de revelar as fotos, tive que escrever meu nome num papel para depois apanhar a gravaçao das fotos num cd. E prontamente coloquei meu nome, Murilo Coutinho. A moça olhou para mim e disse: Murijjo? Su nombre és murijjo? Sorriu. Depois eu me toquei que meu nome para ela tinha novo significado, mureta, murinho. Acho que a pior coisa que pode acontecer a um ser humano é ter um nome que signifique algo vergonhoso em outro país. Imagine uma islandesa chamada Vaca andando nestas terras. Voce nao precisaria nem ofender, os pais dela já fizeram isso. Imagine um menino de seis anos de idade cujos pais russos vieram para cá depois de seu nascimento. Na escola é o único que nao tem apelidos, pois seu nome é Seguei. Porra, numa sala onde há meninos de seis anos serguei é uma ofensa pesada e merecedora de roubar a comida da lancheira do cara, tal como uma mulher chamada Maria Joana nao pode viajar em paz. Seu nome tem a mesma pronúncia de um material que une os povos numa roda com violoes desafinados em dó de madrugada nas praças do mundo (sim, isto também é visto na Argentina, igual) onde a única coisa que se ve é um cigarrinho sendo passado manualmente entre as pessoas do círculo de pessoas e de fumaça. Pensei, a partir daí, numa espécie de codi-nome, algo como MurILO, ficando como MILO. Maravilhoso, se tivesse que repitir isso, colocaria Milo. Até é soa bem. Aí que há a prova bem em seguida, numa livraria muito antiga (sebo), onde o hombre pede para que eu escreva meu nome num papel, para reserva de uns diários. Prontamente escrevi Milo Coutinho, e quase de súbito, o cara vira e diz: Mijjo? Eu sou mesmo idiota. Desde entao nao me identifico nos lugares. Criei vergonha do meu nome numa terra onde se comem Felipes. No almoço deste último dia, um tapa. Sim, uma comidinha de origem latina pouco difundida em terras brasileiras e atribuída aos mexicanos. Comi um tapa e um Felipe (almoço sado, com certeza) e tomei uma coca-cola. Pelas ruas de Montevidéu distribuem-se papéis escritos “Señoritas 24hrs”, teléfono xxx-xx-xx” diante do templo da Iglesia Universal del Reino de Dios (Sim, isto é um verdadeiro cancer social) e se fuma baseado nas portas dos bancos e das igrejas. A minha avó perguntou o que era aquele cheiro estranho, porem me neguei a explicar. O cara da marijuana atravessou a rua com o seu cigarro natural na mao e foi falar com o guarda. Este o deu orientaçoes e acenou para o estranho turista. Um país realmente diferente.

Segunda-feira, Janeiro 03, 2005

Uma Odisséia Platina: Primeira Parte, Aeroportos


Notas de verao sobre impressoes do inverno:

Uma saga pela América Latina protagonizada por Murilo Barba em pleno verao no Trópico de Capricornio

"Nao sabia ao certo se era 24 ou 25 de dezembro, nao havia relógios perto de mim. Poderia comodamente perguntar que horas eram, porém me contentei com o descaso da minha própria ignorância, voltando para casa após a ceia de natal com a família em silêncio, se questionar nada. Sabia que aqueles eram os últimos bons momentos onde a serenidade e a tranquilidade se apoiariam sobre meus cílios com o intuito de fechá-los. Deitei-me na cama crédulo de ter sono, quando o coraçao disparou e obrigou a revirar-me pelos lençóis durante algumas horas. Havia muitos pensamentos na cabeça, o coraçao estava muito leve de tao cheio de sentimento (sim, a matemática dos amantes) e cada pensamento atrapalhava-me o sono. De alguma forma, tudo aquilo ali em mim estava fora do meu controle ao ponto de ter ficar aborrecido comigo mesmo. O corpo irriquieto nao se contentava com o silencio, inventava o que ouvia quando percebia o absoluto silencio, até o momento que finalmente venceu: O despertador anunciava o as três horas da manha de natal. A partir de agora o tempo se torna uma referencia ilógica. Vesti-me e fui com a devida irritaçao levar as malas até a portaria e colocá-las no taxi. A família desceu nos próximos quinze minutos. Havia um veículo rumo ao aeroporto, nele eu encontrava um jovem com um olhar pálido refletindo no vidro da janela do carro. Todas as passagens estavam ali, peguei a minha e analisei um roteiro curioso: Eu demoraria 23 horas para chegar de Belém a Montevidéu, no Uruguai, enquanto o restante da minha família faria o mesmo trajeto nas mesmas 23 horas, entretanto com uma parada estratégica de 10 horas no Rio de Janeiro, enquanto eu me arrastaria pelos aeroportos latinos. Sala de embarque, 6 horas da manha; O corpo começava a fazer mençao de cansaço, e este foi ficando mais claro a cada passo até a poltrona 19 A, a da janela. Sentei, em breves minutos o aviao decola. Eram 6:30 quando vi Belém do alto, a mesma cidade suja que transmitia agonia que vi quando voltei a morar aqui em 1996 após morar em Curitiba. Confirmei o que já era esperado: Os ratos da capital realmente sao maiores que os outros. Começa, entao, uma enorme sucessao de acenos da janela. A chegada em Brasília é confusa, havia uma hora a menos nos relógios, tentava lembrar se a tinha esquecido em casa, no táxi, no aeroporto, no aviao, em algum lugar. Só sei que faltava uma hora no tempo, quando dei-me por conta que era tempo de verao. Brasília sucedeu-se de forma breve, desembargue gera embarque, só que agora rumo Sao Paulo. Havia desmaiado no aviao, nao me recordo da aeromoça oferecer água ou lanchinho no trajeto Belém-Braslília. Para Sao Paulo novamente caio inconsciente na poltrona 19 A, onde sempre acordo mais cansado, vem a dúvida se já estava exausto na metade do caminho. Em Sao Paulo houve uma espera de três horas. Fiquei feliz em ouvir feliz natal de outras pessoas além das comissárias de bordo, mesmo que estas palavras de felicitaçao tenham sido dadas por atendentes de caixa rápido e balconistas. Café preto + coca-cola = resistencia insana. Era a hora das pálpebras anteriormente acariciadas pelo sono serem bruscamente puxadas por exaustao. Embarco rumo à Assunçao, no Paraguai. Nao restava muita coisa deste um corpo insone. Vi o carrinho de comida, sorri irreconhecivelmente ao pedir um copo de leite. Agradeci a aeromoça, entao percebi que ela falava espanhol no seu discreto "gracias a ti". Aterrizei em solo Paraguaio, totalmente tonto de cansaço. Sentia os olhos tremerem e percebi que eu ouvia harpas. Declarei a mim mesmo que o adoçante do café era responsável por aquela alucinaçao, porém o som continuava. O aviao deve ter caído, este é o céu. Somente no céu há harpas, onde os anjos carregam sentimentos selvagens. Percebi que nao estava louco, nem tinha morrido. Muito pior. Havia realmente uma harpa, porém ao perceber a realidade entristeci violentamente, como se eu espremesse as minhas feridas. A minha idéia de gente tocando harpa era diferente. Havia um índio de meia-idade vestindo um fraque de festa de reveillón, cujo sorriso denunciava que ele havia perdido ao menos uns cinco dentes sendo que todos eram da frente, falando um idioma estranho, uma mistura de espanhol com guarani e tocando harpa belamente. Ao redor nada de pessoas bonitas, apenas lojas com roupas artesanais, lanchonetes engorduradas e pessoas feias, dou destaque as mulheres, pois todas usavam bigodes mesmo sendo índias perfeitas. Aquilo era a verdade? Sim. A irritaçao transformou-se em curiosidade. Há mais coisas no Paraguai do que falsificaçoes baratas de brinquedos inúteis e contrabando de cigarros e marijuana. De Assunçao fui para Buenos Aires, onde permaneci durante uma hora. Era incrível a mudança de ambiente, saí do povo típico da américa para um povo de origem européia. Ambos falavam a mesma língua, tinham o mesmo passado histórico, ambos tinham seçoes de música brasileira maior que de música nacional. Incrivelmente cheguei em Buenos Aires 9 horas da noite e ainda era claro, a luz do Sol ainda era presente. As 10 horas, quando parti rumo à Montevidéu deixando Buenos Aires já bem escura, e as luzes da cidade piscando. Os dias no Trópico de Caprocórnio sao belos. Sao noites brancas e dias negros. Este foi um belo dia de natal. Eles sabem que isto é o natal? **** fim da parte 1. Próxima ediçao: Aventuras em Montevidéu, Punta Del Leste, Cassinos, la playa, español puro e outras cositas más da minha viagem, com detalhes sobre o Período de 26 a 30 de Dezembro, no Uruguai. Fique ligado.

Quarta-feira, Novembro 10, 2004

O retrocesso do pensamento volta a ameaçar os dias lindos

"Lasciate ogui speranza, voi ch'entrate".
Dante Aliguieri
ou seja:
"Deixai qualquer esperança, vós que entrais".
- Frase escrita no portão do Inferno, na Divina Comédia de Dante.
A última vez que estive aqui falei sobre consciência política. Sim, o meu grupo venceu. Porém esqueçam tudo sobre a consciência política. Duciomar e o G.W. Bush venceram, o que me leva crer num resgate conservador em micro (Dudu) e macro (G.W. Bush) escala. A vitória em campo micro demonstra que o povo não sabe discernir coisa alguma com mais de um palmo de distância do nariz (vide para compreender a expressão e a profissão do prefeito eleito enquanto médico).
Em escala macro mostra que o retrocesso do pensamento volta a ameaçar os dias lindos. O povo americano decidiu claramente que prefere um candidato que se preocupa em proibir o aborto e a pesquisa com células-tronco e invadir o Iraque e matar tantos os estadunidenses (me recuso a chamá-los de americanos e dizer que eles são a América, pois faço parte da mesma e sou classificado como latino) quando os iraquianos. É justo provocar uma guerra, matar ou morrer pela Democracia? Se a revolução devesse sair de algum lugar, teria que ser de dentro do Iraque, da vontade do próprio povo, da sede própria por democracia. Não conto alguns anos pra outro ditador se instalar lá.
"Ah, Murilo, mas eles não sabem o que é democracia"! Então me digam o que é democracia. Democracia é a vontade do povo em sua maioria. Não existe uma fórmula pré-pronta de democracia, existem modelos. Se os iraquianos desejassem isto, buscariam não pelo título de se autoproclamar democrático (coisa que alguns países se proclamam e não são, que isto fique claro), mas buscariam a essência da libertade e da igualdade. Se chamasse isto de babuska depois iriam perceber (tanto os iraquianos quanto o mundo), que aquela era um desejo do povo.
Eu pensei que tinha raiva da política estadunidense, só que agora percebo que o que eu realmente não gosto é do modelo americano de agir, abrangendo, desta vez, o pensamento político de toda uma nação.
No texto seguinte contém palavras de reflexão num tom anarquista com um forte sotaque alemão com algumas coisas puxando para o inglês principalmente no humor.
1
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer? Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
2
E também difícil, ao que nos é dito, Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma fôrma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4
Ou será que Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que (o povo) custa a aprender?
(Dificuldades de Governar, por Bertolt Brecht)
Eis a mais perpétua sombra da dúvida.
p.s. (para a meia dúzia de leitores deste blógue): Prometo não falar mais de política tão cedo. Estou nefastamente chateado com tudo isto.
p.s. atualizarei este blógue novamente com maior freqüência. PROMETO.
p.s. não vou morrer de febre, espero.
blasé!

Quarta-feira, Outubro 27, 2004

Perguntas de um operário letrado

Não vou me estender muito hoje (sim!), mas aviso que será por conta do pouco tempo, pois estou participando da eleição para Centro Acadêmico de Direito da Unama (Centro Acadêmico Orlando Bittar, o vulgo CADOB), sendo integrante da chapa MOARA.
Algumas pessoas tem me perguntando o porquê deste nome, que por sinal é um nome feminino (aquela noite na casa da Moara foi legal, não foi Yuri?), mas MOARA quer dizer em tupi-guarani reencontrar, por isto o nome, já que buscamos reencontrar o movimento universitário, restaurando a consciência política, mas não partidarizando as pessoas, afim que elas tenham condições de refletir sobre o papel do Estado na sociedade e, sendo o Direito um instrumento do povo para a tão sonhada justiça, buscamos que este futuro operador do Direito seja utilizado não só como transformador da sociedade, mas como a própria ferramenta de reconstrução de uma sociedade melhor, sem falsas promessas e com compromisso de luta.
Para ter como trabalhar nesta fase de preparação dos alunos de Direito é que faço parte do MOARA, com a real consciência que as grande transformações na sociedade começam na base do ofício.
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis.
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu?
Em que casas da lima dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China
para onde Foram os seus pedreiros?
A grande Roma Está cheia de arcos de triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem Triunfaram os Césares?
A tão cantada Bizâncio Só tinha palácios Para os seus habitantes?
Até a legendária Atlântida Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias. Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou
Filipe de Espanha Chorou. E ninguém mais?
Frederico 11 ganhou a Guerra dos Sete Anos.
Quem mais a ganhou?
Em cada página urna vitória. quem cozinhava os festins?
(poema de Bertolt Brecht, Perguntas de um operário letrado)